22/10 - Dia Internacional de Atenção à Gagueira - DIAG

O Dia Internacional de Atenção à Gagueira (International Stuttering Awareness Day, ISAD) é celebrado em 22 de outubro desde 1998. A data foi instituída para promover a disseminação de informação baseada em evidências, reduzir o estigma associado ao transtorno e ampliar o acesso a avaliação e intervenção adequadas (INTERNATIONAL STUTTERING ASSOCIATION).
Definição e caracterização clínica
A gagueira é um transtorno do neurodesenvolvimento da fluência da fala, classificado no DSM-5 como transtorno da fluência com início na infância (American Psychiatric Association, 2014). Caracteriza-se por disfluências típicas da gagueira (repetições de sons e sílabas, prolongamentos e bloqueios), frequentemente acompanhadas de tensão muscular, comportamentos secundários (como piscar de olhos, movimentos de cabeça e esforço articulatório) e estratégias de evitação de palavras ou situações de fala.
O quadro é multidimensional. Além dos comportamentos observáveis, envolve reações afetivas e cognitivas, como ansiedade antecipatória, vergonha e crenças negativas sobre a própria comunicação, com impacto potencial na participação social, no desempenho acadêmico e profissional e na qualidade de vida (Craig et al., 2009; Yaruss & Quesal, 2006). Por isso, a avaliação deve considerar não apenas a frequência e o tipo das disfluências, mas também a experiência do falante.
Epidemiologia e curso
A prevalência na população adulta é estimada em cerca de 1%. A incidência cumulativa na infância é de aproximadamente 5 a 8%, com início habitualmente entre 2 e 5 anos de idade. Estima-se que cerca de 70 a 80% das crianças se recuperem de forma espontânea ou com intervenção, enquanto o restante persiste com o quadro na vida adulta. Há maior prevalência no sexo masculino, e essa diferença se acentua ao longo do desenvolvimento, em função de taxas de recuperação mais elevadas entre as meninas (Yairi & Ambrose, 2013).
Fatores como histórico familiar de gagueira, tempo de duração do quadro, sexo masculino, presença de comorbidades de linguagem e padrão de evolução são considerados na estimativa do risco de persistência (Yairi & Ambrose, 2005, 2013), o que reforça a importância da avaliação precoce.
Etiologia
A etiologia é multifatorial. Há evidências consistentes de componente genético, com herdabilidade estimada em torno de 70 a 80% (Dworzynski et al., 2007; Kraft & Yairi, 2012), e identificação de variantes em genes associados ao metabolismo lisossomal (Kang et al., 2010). Estudos de neuroimagem apontam diferenças na conectividade e no funcionamento de redes envolvidas no planejamento e na execução motora da fala, particularmente nos circuitos córtico-estriado-tálamo-corticais e nas regiões de integração auditivo-motora (Chang et al., 2019). Fatores ambientais e emocionais podem modular a manifestação do quadro, mas não são considerados causais.
Não há sustentação científica para as hipóteses de que a gagueira resulte de práticas parentais, trauma, imitação ou traços de personalidade (Yairi & Ambrose, 2005).
Avaliação e intervenção
A avaliação fonoaudiológica deve ser abrangente, contemplando a análise da fala (frequência e tipologia das disfluências, severidade e presença de comportamentos associados), aspectos de linguagem, o histórico familiar e do desenvolvimento, bem como o impacto emocional, comunicativo e social da gagueira. Em adultos e adolescentes, instrumentos como o OASES (Overall Assessment of the Speaker’s Experience of Stuttering) permitem mensurar essa dimensão de forma padronizada (Yaruss & Quesal, 2006).
A conduta terapêutica é individualizada e varia conforme a faixa etária e o perfil clínico. Em pré-escolares, abordagens como o Programa Lidcombe, com evidência de eficácia em ensaio clínico randomizado (Jones et al., 2005; Onslow et al., 2003), e intervenções baseadas no modelo demandas-capacidades, com orientação parental (Starkweather & Gottwald, 1990), são amplamente utilizadas. Em adolescentes e adultos, a intervenção pode combinar modificação da gagueira, modelagem da fluência, dessensibilização, manejo de aspectos cognitivo-afetivos e estratégias de redução da evitação, com objetivos centrados na comunicação eficaz e confortável, e não apenas na redução das disfluências.
Considerações finais
O DIAG reforça a necessidade de que a prática clínica, a produção científica e as políticas de inclusão estejam alinhadas a uma compreensão ampla da gagueira como condição de natureza multifatorial e impacto multidimensional. A atuação do fonoaudiólogo, em parceria com famílias, escolas e demais profissionais, é determinante para favorecer a participação plena das pessoas que gaguejam em nossa sociedade.





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