Talvez a cura para o distúrbio da fala que atinge cerca de 1% da população mundial pode vir através do tratamento médico, e não psicológico, como se pensava antes.
Como uma criança que gagueja muito, Gerald Maguire aprendeu os truques da imitação. Quando a professora fazia a chamada, Maguire respondia imitando a voz de personagens de desenho, como Elmer ou Pato Donald, pois dessa maneira ele não gaguejava. Ele aprendeu sinônimos mais fáceis para as palavras que o faziam "travar". E ele quase nunca usava o telefone, porque ele não conseguia falar seu próprio nome.
Agora, Maguire, um psicólogo na Universidade da Califórnia, em Irvine, quer curar a doença que afeta a si mesmo e outros três milhões de americanos. Ele está procurando uma droga que consiga tratar a gagueira, organizando estudos e até testando em si próprio.
Ele pode estar chegando perto da resposta que procura. Em maio, a empresa Indevus Farmacêuticos anunciou o que ela chamou de "resultados encorajadores" do maior estudo de drogas para gagueira já realizado. Mais testes são necessários, que podem levar de dois a três anos, mas se conseguirem, a droga, pagoclone, pode se tornar o primeiro tratamento médico aprovado contra gagueira.
Isso é apenas o começo para a cura deste problema, que um dia foi considerado um problema nervoso ou uma condição emocional e, pelo menos em parte, genética. "Toda essa teoria se modificou nos últimos dez anos", disse Maguire, que ajudou a desenvolver os testes da Indevus. "Quando eu era um estudante de medicina não aprendi nada a respeito da gagueira".
Mas ainda muito deve ser aprendido sobre as causas desta condição e como tratá-la. É estimado que cerca de 1% da população mundial sofre de gagueira, mas este número pode ser maior. A maior parte dos casos de gagueira recai sobre os homens, cerca de quatro para cada mulher que gagueja.
A droga pagoclone foi inicialmente testada como um tratamento para disfunções de pânico e ansiedade. Os resultados eram diferenciados, e a Pfizer, que tem os direitos sobre a droga, enviou o medicamento de volta para os laboratórios da Indevus. Mas naqueles testes, algumas pessoas que gaguejavam diziam que sua capacidade de locução havia melhorado. Então a Indevus conseguiu uma patente que colocava a droga na ordem de tratamento de gagueira e começou a testá-la clinicamente, onde 88 pacientes ingeriram a substância e outros 22 um placebo.
Na maioria dos casos, aqueles que tomaram a droga melhoraram significantemente em relação à porcentagem que recebeu o placebo. Em uma conferência para analistas feita na Indevus, Maguire disse que alguns pacientes que tomaram a droga conseguiram, finalmente, o emprego que queriam e puderam até marcar encontros. "É quase como um despertar", disse o psiquiatra, "pessoas saindo de suas conchas através da fala".
Fonte: Último Segundo
Data: 12/09/2006