À medida que a gagueira começa a sair do ostracismo científico a que foi relegada, um novo filme chama a atenção para este distúrbio da fala que afeta nada menos que 1% da população mundial (1,8 milhão de pessoas só no Brasil). Trata-se de Rocket Science, um dos destaques do festival de Sundance deste ano (ainda sem título nem data de estréia definidos para o Brasil).
Inteligente e perspicaz não são adjetivos geralmente usados para descrever filmes adolescentes, mas Rocket Science transcende o gênero ao mostrar como a gagueira pode amplificar até os limites do suportável as agonias e desapontamentos da juventude. Ele foi inspirado na adolescência de seu próprio diretor, Jeffrey Blitz, um promissor cineasta da nova geração que já foi indicado ao Oscar em 2002 por seu primeiro trabalho (o documentário Spellbound).
Além de dirigir, Blitz também escreveu e produziu o filme. Ter uma experiência pessoal com a gagueira ajudou-o bastante na tarefa (Blitz convive com o distúrbio desde a infância). Esse detalhe de sua biografia tornou a abordagem do tema em Rocket Science muito mais verossímil do que normalmente ocorreria. Dirigido por uma pessoa que não tivesse a exata noção do que a gagueira acarreta no dia-a-dia de alguém, o tratamento do assunto muito provavelmente se perderia nos clichês de sempre.
O inusitado em Rocket Science começa desde seu protagonista: uma pessoa que gagueja instintivamente prefere os bastidores, os papéis secundários, mas Hal Hefner (vivido pelo ator revelação Reece Thompson) faz exatamente o movimento oposto. Estudante secundário em New Jersey, Hal decide tomar a mais improvável das atitudes para uma pessoa que gagueja: impelido por uma avassaladora paixão juvenil, resolve entrar no grupo de debates da escola e ir em busca de sua voz perdida.
No inglês informal, "rocket science" significa um desafio muito complicado, que requer esforço acima da média, semelhante ao esforço exigido para alguém se tornar um astronauta (um "rocket scientist") e também ao esforço exigido de alguém com gagueira para falar em público. Essa é a analogia pretendida pelo título do filme.
Em uma entrevista ao repórter James Snyder do New York Sun, Blitz contou como os desafios que ele teve que enfrentar por causa da gagueira moldaram seus interesses como cineasta e roteirista: "Agora sou um verdadeiro amante das palavras. Eu amo o poder de palavras específicas, tenho verdadeiro fetiche por elas, algo que jamais teria se não tivesse gagueira".
"Mas às vezes, é frustrante", admite Blitz. Na cadeira de diretor, Blitz precisa encontrar formas de se desvencilhar da gagueira. "Ele não consegue dizer 'ação' ou 'corta' ", entrega o ator Reece Thompson. "Ele geralmente usa um gesto, balança as mãos."
"Mesmo quando você está falando de forma fluente, você fica o tempo todo consciente de que o mecanismo inteiro da fala pode colapsar a qualquer momento", diz Blitz. "Qualquer conversa para quem tem gagueira é como patinar no gelo, há sempre o receio de cair ou de o gelo se partir por ser fino demais."
Mas ele explica como conseguiu transformar sua fraqueza em força: "Quando garoto, aprendi uma infinidade de novas palavras, porque precisava freqüentemente substituir aquelas que não conseguia dizer por outras que me permitiam driblar os bloqueios da gagueira. Tornei-me um devorador de dicionários. Assim, acabei desenvolvendo um nível de admiração pelo poder das palavras que pessoas fluentes dificilmente conseguiriam ter".
Pelo resultado de seu filme, vê-se que Blitz aprendeu a se equilibrar muito bem na superfície fina e escorregadia da gagueira.
Diretor, roteirista e produtor de Rocket Science, o cineasta Jeffrey Blitz faz neste vídeo uma breve apresentação de seu elogiado filme ao público do festival de Sundance, onde venceu em 2007 o prêmio de melhor direção dramática. As legendas em português são uma cortesia do IBF.
Texto e legendas: Hugo Silva
Revisão: Sandra Merlo