
A gagueira está codificada na "Classificação Internacional de Doenças" (CID-10) com os caracteres F98.5. Desta forma, a gagueira é cientificamente considerada como distúrbio ou transtorno de fluência da fala.
O problema central na gagueira consiste em uma dificuldade do cérebro para sinalizar o término de um som ou uma sílaba e passar para o próximo. Desta forma, a pessoa consegue iniciar a palavra, mas fica "presa" em algum som ou sílaba (geralmente o primeiro) até que o cérebro consiga gerar o comando necessário para dar prosseguimento com o restante da palavra.
Acredita-se que as estruturas cerebrais envolvidas com a gagueira sejam os núcleos da base, os quais estão envolvidos com a automatização de tarefas (dirigir, calcular, escrever, falar, etc.). Portanto, a dificuldade central na gagueira estaria em uma automatização deficiente dos movimentos de fala.
Geralmente a dificuldade do cérebro em gerar comandos para terminar um som ou sílaba no tempo previsto manifesta-se externamente como bloqueios, prolongamentos e/ou repetições de sons ou sílabas. Entretanto, também é possível que as manifestações externas não ocorram ou ocorram muito pouco, caracterizando o que é conhecido como "gagueira encoberta". A gagueira encoberta ocorre com pessoas que são extremamente hábeis no uso de certas estratégias lingüísticas como, por exemplo, substituição de palavras, mudança na ordem das palavras, circunlocuções, uso de marcadores discursivos ("olha", "bom", "então", etc.), uso de pausas preenchidas ("éh", "ãh"), evitação e fuga de determinadas situações ou pessoas. Essas estratégias são utilizadas com maestria pelas pessoas com gagueira encoberta, mas seu uso não está restrito a elas: virtualmente todas as pessoas que gaguejam utilizam algumas estratégias para ocultar ou minimizar a ocorrência externa da gagueira na tentativa de lidar com o distúrbio e de diminuir o estigma social.
Em relação à fala, os núcleos da base atuam principalmente em situações de fala espontânea, especialmente quando a mensagem apresenta grande conteúdo. O envolvimento dos núcleos da base tende a diminuir em situações que não envolvem fala espontânea (exemplos: cantar, falar com outro sotaque, falar de forma silabada, falar no ritmo de um metrônomo, ler em coro) e também em situações em que há pouco conteúdo na fala (exemplos: falar com animais, falar com crianças pequenas, falar sozinho): é por isso que essas situações geralmente induzem a fluência em pessoas que gaguejam. Muitas pessoas acreditam que a gagueira é um distúrbio emocional ou psicológico justamente porque ocorrem essas variações de fluência. Entretanto, a gagueira é um distúrbio neurológico e as variações de fluência podem ser explicadas pelo maior ou menor envolvimento dos núcleos da base na fala.
Além disso, o envolvimento dos núcleos da base na gagueira é compatível com a idade de início do distúrbio: geralmente entre 2 e 3 anos. Nesta idade, os circuitos dos núcleos da base estão em pleno desenvolvimento e há grandes alterações na concentração dos receptores D1 e D2 de dopamina (a dopamina é o principal neurotransmissor dos núcleos da base).
A gagueira é involuntária, ou seja, a pessoa que gagueja não tem controle sobre a sua fala e não consegue evitar a ocorrência da gagueira, por mais que se esforce.
Além dos sinais externos, a gagueira também está associada com um grande sofrimento interno, porque a pessoa tem o que falar, sabe o que falar, mas não consegue (veja a seção de Depoimentos). Desta forma, geralmente ocorre uma forte reação à gagueira, porque ela interfere na comunicação e nos desempenhos escolar e profissional.
No Brasil, segundo o IBGE, a população está estimada em quase 192 milhões de pessoas.
A incidência da gagueira é de 5%, ou seja, 9 milhões e 589 mil brasileiros estão passando por um período de gagueira neste momento. Este número é maior do que a população da cidade do Rio de Janeiro.
A prevalência da gagueira é de 1%, ou seja, 1 milhão e 917 mil brasileiros gaguejam há muitos anos de forma persistente, crônica. Este número é maior do que a população de Manaus ou Curitiba.
Gagueira em Diferentes Etnias

Os índios Bannock-Shoshoni não gaguejam?
Referência bibliográfica:
FELSENFELD, Susan. (1997). Epidemiology and genetics of stuttering. In: Curlee, Richard F. & Siegel, Gerald M. (eds). Nature and Treatment of Stuttering: New Directions. 2nd ed. Boston: Allyn and Bacon. p. 3-23.
A gagueira (entendida aqui como uma dificuldade dos núcleos da base em sinalizar o término de um som ou sílaba da fala) pode ser causada por herança genética (55% dos casos) e/ou por lesão cerebral (45% dos casos).
Disponibilizamos o artigo "What causes stuttering?", escrito por Christian Büchel & Martin Sommer e publicado na revista científica "PloS Biology" em 2004. Também disponibilizamos a tradução deste mesmo artigo. A distribuição e tradução deste artigo somente foi possível graças à política de livre acesso adotada pelo jornal.
A leitura deste artigo foi recomendada pela revista Viver Mente & Cérebro na edição de dezembro de 2006.
"What causes stuttering?" - artigo original em inglês
"O que causa gagueira?" - tradução para o português
Há muitos anos, sabe-se que a gagueira não ocorre aleatoriamente na população, mas tende a se concentrar em determinadas famílias. 55% das pessoas que gaguejam têm pais, irmãos, filhos, tios, primos, avós e/ou netos com gagueira.
O que é transmitido geneticamente é a tendência para gaguejar, mas não a gagueira em si. É imprescindível deixar claro que o fato de apresentar herança genética para a gagueira não implica, necessariamente, manifestá-la. A manifestação da gagueira sempre dependerá da interação com o ambiente.
A maior parte dos estudos genéticos indicam a possibilidade de a gagueira ser transmitida por herança poligênica ao invés de gene único, o que quer dizer que haveria alguns poucos genes responsáveis pela gagueira e não apenas um só.
A genética influencia de modo marcante na tipologia da gagueira. Ou seja, se a gagueira de um membro da família é caracterizada por bloqueios, provavelmente os outros membros também apresentarão bloqueios. Ao passo que, em uma outra família, a gagueira pode ser mais caracterizada por repetições de sílabas e bloqueios. E assim por diante.
Por outro lado, a genética não parece influenciar de modo marcante na transmissão da gravidade da gagueira. Ou seja, não é porque um membro da família apresenta uma gagueira grave que um outro membro também irá apresentar. Desta forma, a gravidade da gagueira é mais influenciada por outros fatores (lingüísticos, emocionais e/ou sociais).
Referência bibliográfica:
FELSENFELD, Susan. (1997). Epidemiology and genetics of stuttering. In: Curlee, Richard F. & Siegel, Gerald M. (eds). Nature and Treatment of Stuttering: New Directions. 2nd ed. Boston: Allyn and Bacon. p. 3-23.
Muitas vezes a gagueira ocasionada por lesão neurológica é chamada de "gagueira neurogênica" ou "gagueira adquirida". Esses termos não são bons, porque podem dar a entender que não existe comprometimento neurológico na gagueira ocasionada por herança genética.
Acredita-se que 45% das gagueiras iniciadas na infância sejam em decorrência de lesão cerebral precoce nos núcleos da base (ou em regiões que se conectam a eles). Indícios de ocorrência de lesão cerebral precoce incluem: hipóxia pré ou perinatal, prematuridade e concussão cerebral (traumatismo craniano fechado com estado alterado de consciência).
Crianças que gaguejam e que apresentam indício de lesão neurológica costumam ser mais desatentas e/ou hiperativas do que a média, exibindo traços do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), mas geralmente sem um número suficiente de sintomas para caracterizar um quadro clínico de TDAH.
A lesão nos núcleos da base (ou em regiões que se conectam a eles) também pode ocorrer na idade adulta. A lesão tende a ser originada por acidente vascular cerebral ("derrame cerebral"), traumatismo craniano ou doenças neurodegenerativas (como esclerose múltipla). O início da gagueira tende a ser abrupto, geralmente sendo verificado logo após a ocorrência da lesão. Se a lesão for extensa, comprometendo diversas estruturas cerebrais além dos núcleos da base, a fluência tende a não melhorar significativamente em situações como canto, leitura em coro e feedback auditivo atrasado. A pessoa geralmente está consciente de seu distúrbio de fala. As hesitações/disfluências gaguejadas mais comuns tendem a ser as repetições de sílabas e os prolongamentos iniciais de sons; bloqueios tendem a ser mais raros. Os comportamentos acessórios e os comportamentos de fuga e evitação tendem a ser pouco freqüentes.
Referências bibliográficas:
ALM, Per A. (2005). On the Causal Mechanisms of Stuttering. PhD thesis, Lund University (Sweden).
ALM, Per A. (2004). Stuttering and the basal ganglia circuits: a critical review of possible relations. Journal of Communication Disorders 37, p. 325-369.
A "gagueira psicogênica" não é uma gagueira verdadeira: é um sintoma de conversão. Neste caso, a alteração na fluência da fala é a expressão de um conflito ou de uma necessidade psíquica. De modo geral, a "gagueira psicogênica" apresenta as seguintes diferenças em relação à gagueira verdadeira:
- As hesitações/disfluências gaguejadas tendem a ser altamente estereotipadas, havendo, por exemplo, a repetição da sílaba inicial, da sílaba tônica ou da sílaba final das palavras. Os sintomas traduzem a idéia que a pessoa possui da gagueira. Entretanto, se houver acesso a um modelo de gagueira, as hesitações/disfluências podem ocorrer de forma convincente.
- Comportamentos acessórios também dependem de acesso a um modelo de gagueira.
- Comportamentos de fuga e evitação tendem a ser pouco freqüentes.
- A pessoa geralmente não está consciente de seu distúrbio de fala (la belle indifférence).
- O início da gagueira tende a ocorrer subitamente.
- Todos os casos relatados na literatura envolveram adultos.
- Admite-se que sua causa seja psicogênica, porque a "gagueira" ocorre em relação temporal estreita com eventos traumáticos, problemas insolúveis ou insuportáveis e relações interpessoais difíceis.
- O diagnóstico psiquiátrico é de transtorno de conversão (CID-10: F44).
- Geralmente há histórico de outros transtornos mentais.
- A fluência tende a não melhorar significativamente em situações como canto, leitura em coro e feedback auditivo atrasado.
Referências bibliográficas:
MAHR, Greg & LEITH, William. (1992). Psychogenic stuttering of adult onset. Journal of Speech and Hearing Research 35, p. 283-286.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. (2003). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. Volume 1. 10ª revisão. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.
O "diagnóstico diferencial" é o processo para distinguir dois distúrbios de aparência semelhante. É necessário analisar detalhadamente a origem, a caracterização e o desenvolvimento dos sinais e sintomas para se chegar à conclusão de que pertencem a um determinado distúrbio e não a outro. Em diversos casos, é necessário fazer o diagnóstico diferencial entre a gagueira e outros distúrbios de fala. Os distúrbios que mais freqüentemente podem se confundir com a gagueira são:
"Fala rápida" ou "falar rápido" são expressões leigas para os distúrbios taquilalia e taquifemia. Esses distúrbios podem se confundir com a gagueira na medida em que o aumento da taxa de elocução ("velocidade de fala") geralmente aumenta o número de hesitações/disfluências na fala, ocasionando a falsa impressão de gagueira. Para saber mais sobre taquilalia e taquifemia, clique aqui.
A disfonia espasmódica é um distúrbio de voz em que ocorrem contrações involuntárias nos músculos da laringe. Na disfonia espasmódica adutora e na disfonia espasmódica mista ocorrem interrupções na voz que podem ser confudidas com os bloqueios que ocorrem na gagueira. Além disso, a fala como um todo apresenta esforço. Para saber mais sobre disfonia espasmódica, clique aqui.
O cartunista Scott Adams, criador do personagem Dilbert, apresenta disfonia espasmódica. Em um relato pessoal, Scott Adams refere que seu problema está mais localizado na fala espontânea habitual, conseguindo cantar e falar sozinho normalmente (como ocorre em muitos casos de gagueira). Para ler a tradução de seu relato pessoal, clique aqui.
Tiques são movimentos rápidos, abruptos, repetitivos e sem propósito, que ocorrem em virtude de uma disfunção nos núcleos da base. Os tiques são involuntários e o indivíduo com tiques não consegue ter controle sobre eles. Os tiques costumam ser precedidos por sensações premonitórias (sinais físicos ou mentais que "avisam" que algum tique está prestes a acontecer). Após o tique, o sujeito pode experimentar uma sensação de alívio. De forma geral, os tiques são classificados em dois grandes grupos:
Alguns tiques podem ser confundidos com gagueira. Em relação aos tiques motores, o engano mais comum é achar que o movimento está sendo feito para "soltar" a gagueira. Em relação aos tiques vocais, o engano mais comum é não diferenciar o tique vocal da própria gagueira. A co-ocorrência de gagueira e tiques é freqüente, não devendo, portanto, ser subestimada. A seguir, apresentamos um vídeo sobre duas pessoas com síndrome de Tourette (uma condição neurológica em que são verificados tiques motores e vocais). Em relação à moça do vídeo, é possível observar tiques motores (p. ex., fechar os olhos, rodar a cabeça para trás) e tiques vocais (p. ex., repetições de palavras com aumento do volume vocal, proferição de sons vocálicos inapropriados ao contexto de fala). Em relação ao rapaz do vídeo, é possível observar tiques motores (p. ex., elevar um dos ombros, girar a cabeça).
A música é um forte indutor da fluência em pessoas que gaguejam. A maior parte das pessoas com gagueira consegue cantar fluentemente, apesar de enfrentar dificuldades para falar fluentemente. O mesmo ocorre na doença de Parkinson: pessoas com Parkinson têm dificuldades para movimentar-se, mas, quando a música está presente, os movimentos costumam melhorar significativamente.
No vídeo abaixo, o neurologista e escritor inglês Oliver Sacks - autor de best-sellers como "Um antropólogo em Marte", "Tempo de despertar" e "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu" - relata um caso clínico que mostra como a música é capaz de dar fluxo aos movimentos "gaguejantes" de uma pessoa com Parkinson, fazendo-nos pensar sobre as possíveis relações que existem entre a gagueira e outros distúrbios dos núcleos da base que afetam o ritmo e a suavidade dos movimentos.
Veja algumas aplicações da legislação brasileira para a gagueira (em relação à família, à escola, ao trabalho e ao tratamento). Maiores informações aqui.
Orientações sobre o uso do telefone para pessoas com gagueira. Maiores informações aqui.
A gagueira está envolvida por um grande estigma social. As pessoas que gaguejam geralmente são percebidas como nervosas, tensas e desajustadas emocionalmente. Estes são grandes estereótipos em torno da pessoa que gagueja. Para saber mais sobre o estigma da gagueira, clique aqui.
Para saber sobre as relações entre linguagem, cognição e gagueira, leia o texto elaborado pela professora doutora Ana Flávia Magela Gerhardt.
Para ler depoimentos de pessoas com gagueira, clique aqui.
Quer conversar sobre gagueira? Faça parte desta lista de discussão, que já conta com mais de 400 participantes!