A gagueira como experiência de crescimento


"Não pergunte que doença a pessoa tem, mas antes que pessoa a doença tem".
William Osler, 1849-1919, médico canadense


A gagueira é considerada como uma deficiência da fluência da fala (código b3300) pela Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) da Organização Mundial da Saúde (OMS). Sendo assim, acreditamos que reflexões acerca da deficiência em geral podem ser úteis para o caso particular da gagueira.


A aceitação da deficiência desenvolve-se gradualmente ao longo dos anos. Raramente ocorre em um passe de mágica. As experiências de vida podem ensinar, pouco a pouco, que a deficiência não precisa ser vista como uma tragédia. Ela pode ser apenas uma complicação ou uma inconveniência - e quem não tem isso na vida? Eventualmente, para algumas pessoas, a deficiência pode ser vista como um catalisador do crescimento.

Didaticamente, é possível separar o processo de aceitação da deficiência em estágios. Os estágios são pontos em um contínuo e não categorias discretas. Descrevem fases comuns, mas não inevitáveis do processo de amadurecimento.

Nível 0: Negação ou choque

Não é possível nem mesmo reconhecer a deficiência. A deficiência existe, mas o indivíduo não consegue reconhecê-la conscientemente. Isso pode ser verdadeiro para todas as situações ou para a maioria das situações em que a deficiência se torna aparente. Quase não existe ansiedade. Feridas pela diferença, muitas pessoas tendem a adotar a negação como forma de se proteger da sensação de desconformidade causada pela deficiência. A idéia da diferença as angustia, ainda mais quando marcada pela desvantagem.

A negação tem valor para a sobrevivência do indivíduo, não sendo um mero sinal de fraqueza psicológica. Além das razões práticas para desejar que a deficiência não exista, também existem outras razões, que resultam do status desvalorizado da deficiência na sociedade. Socialmente, a deficiência leva à desvalorização, que, por sua vez, leva à segregação e à opressão. O indivíduo é visto como aberrante. Não é incomum haver educação e socialização insatisfatórias, as quais resultam em um status menos competitivo. Conseqüentemente, também não é incomum haver insucesso, o que reforça ainda mais a autodesvalorização e a desvalorização pelos outros. Quando o círculo vicioso da deficiência é examinado desta forma, é mais fácil compreender por que as pessoas preferem negar a deficiência.

O sentimento de desvalorização torna-se fundamental em relação à deficiência, porque o indivíduo se vê incapacitado para exercer funções comuns para a maioria das pessoas. A sensação de incompetência leva ao sentimento de desvalorização.

À medida que o indivíduo percebe que a negação não faz com que a deficiência desapareça, consegue escapar deste círculo vicioso, tornando-se capaz de abandonar a "proteção" que a negação propicia.

Nível 1: Reconhecimento dos fatos ou expectativa de recuperação

O indivíduo compreende a natureza e a extensão das limitações e o estigma social, mas detesta cada parcela disso. A deficiência é vista como uma tragédia e tem valência negativa.

Quando consegue reconhecer a deficiência, geralmente entra em cena a expectativa da recuperação. Não há motivação para aprender a conviver com a deficiência, porque há esperança de que ela irá desaparecer. O indivíduo acredita que, para melhorar da deficiência, basta ser assíduo às terapias de reabilitação. Desta forma, o indivíduo consegue reconhecer boa parte dos fatos, mas não o fato que mais irá transtorná-lo: a permanência da deficiência.

Quando a deficiência não desaparece por completo, ocorre o luto. No luto, são comuns os sentimentos depressivos e os pensamentos suicidas. É comum o indivíduo se culpar pelo seu estado e ser hostil consigo mesmo e com os outros. Alguns se resignam e permanecem neste estado indefinidamente.

O acting out pode entrar em cena: o indivíduo passa a tomar atitudes radicais e prematuras (exemplos: sai de casa, pede demissão no emprego, casa-se, etc). É um mecanismo sofisticado de negação, que exige menos do indivíduo em comparação com outras estratégias (aderir aos tratamentos, por exemplo). Tendências histriônicas também podem ter lugar: por fora, o indivíduo sorri, mas, por dentro, sente-se devastado. É um outro mecanismo sofisticado de negação, com o qual o indivíduo consegue lidar.

Nível 2: Aceitação das implicações ou estágio de defesa sadia

O indivíduo compreende a sua condição, mas sem um sentido de perda, demonstrando aceitar o que é sem recriminação. O estilo de vida está adaptado ao fato de ele ser portador de uma deficiência. As barreiras são reconhecidas e são contornadas. A deficiência é vista apenas como uma complicação e tem valência neutra. Esta é considerada uma defesa sadia. A defesa é considerada neurótica quando o indivíduo se esforça para negar a existência das barreiras.

Para chegar a este nível, é necessário aceitar sem rancor as condições que a vida apresentou. As tendências para sucumbir à raiva, ao desânimo, à aversão própria e a outros sentimentos corrosivos estão fortemente relacionadas à não-aceitação. Aceitar a deficiência não significa aceitar sonhos e objetivos de segunda categoria.

Nível 3: Acolhida da experiência ou ajustamento

O indivíduo reconhece que, sem a deficiência, seria diferente do que é e não tem vontade de ser diferente. Existe a percepção e a valorização de que a deficiência foi e continuará sendo um catalisador do crescimento. A deficiência é vista como uma oportunidade (que pode ou não ser aproveitada) e tem valência positiva. O indivíduo não mais considera sua deficiência como uma barreira contra a qual lutar, porque encontra outras formas de satisfazer as suas necessidades.

Poucos indivíduos com deficiências chegam a cogitar a existência deste nível. Esta perspectiva pode chocar muitas pessoas ou pode soar como uma piada sarcástica. Entretanto, diversos indivíduos já afirmaram que "a deficiência os tornou fortes".

"Transcender a deficiência" significa superação acima dos limites impostos. Pode ser superar a própria deficiência, as expectativas sociais relacionadas à deficiência e/ou as suas próprias reações emocionais relacionadas à deficiência.

Os indivíduos que transcenderam a deficiência aprenderam duas lições importantes. Primeiro, aprenderam que a deficiência realmente pode acontecer (não é apenas algo que pode ocorrer com os outros). Segundo, aprenderam que, se aconteceu, está tudo certo.

Neste nível, não há desejo de voltar para o estado anterior à deficiência, porque isso significa negar a validade e o valor da experiência da deficiência como estimulante do crescimento psicológico. O cerne do desenvolvimento psicológico é a aceitação realista das próprias limitações. Nunca somos o que gostaríamos de ser - por mais bonitos, bons, inteligentes, serenos ou fortes que demonstremos ser. Mas não é recomendado que o indivíduo aceite definições externas e estereotipadas do que consegue ou não fazer: ele deve descobrir, através dos seus acertos e dos seus erros, o que realmente está e o que não está além de sua capacidade. Neste nível, os indivíduos compreendem que, apesar de não serem como gostariam, precisam fazer o melhor possível com tudo aquilo que são.

Transcender a normalização

Para algumas pessoas com deficiências, lutar pela normalização é lutar por muito pouco. O normal é um ideal esplêndido para todos aqueles que não encontraram uma adaptação, mas, para aqueles mais capacitados do que a média, a restrição ao normal significa um tédio insuportável. Para essas pessoas, a experiência de serem incomuns em relação à deficiência pode catalisar a aceitação de serem incomuns em outros aspectos também.

As primeiras linhas do credo do Centro de Recursos Humanos em Long Island, em Nova York, refletem uma meta que ultrapassa a normalização: "Eu não escolho ser um homem comum. É meu direito ser incomum - se eu puder".



Referências bibliográficas:

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE - OMS. (2003). Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde - CIF. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

VASH, Carolyn L. (1988). Transcender - A deficiência como experiência de crescimento. In: Enfrentando a Deficiência; a manifestação, a psicologia, a reabilitação. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. p. 143-158.


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