Características > Estigma social

Sandra Merlo
Fonoaudióloga
Instituto Brasileiro de Fluência - IBF

 

A gagueira está envolvida por um grande estigma social. As pessoas que gaguejam geralmente são percebidas como nervosas, tensas e desajustadas emocionalmente. Estes são grandes estereótipos em torno da gagueira e da pessoa que gagueja. Atualmente, sabe-se que a gagueira é involuntária e inúmeras pesquisa afirmam que esse padrão de fala possui uma base orgânica (neurofisiológica); dessa forma, as alterações emocionais seriam conseqüência de anos de má convivência com a gagueira e não propriamente a causa da gagueira.

A sociedade, de forma geral, tende a adotar uma postura de riso e chacota diante da gagueira por não entendê-la e não saber de que outra maneira lidar com este distúrbio de fluência.

A modificação das expressões utilizadas para se referir a pessoas que apresentam um determinado distúrbio é uma forma de se diminuir o estigma em torno do distúrbio. Nos últimos anos, estão sendo feitos diversos esforços para que se deixe de usar o termo gago e para que se comece a utilizar a expressão pessoa que gagueja.

O sentimento de desvio da pessoa que gagueja têm conseqüências importantes sobre seu comportamento. Pesquisas já demonstraram que pessoas com algum tipo de desvio preferem se unir a outras pessoas também classificadas como divergentes ao invés de se unir às pessoas tidas como normais. Essas pesquisas representam a contrapartida laboratorial da formação de clubes, grupos sociais e subculturas pelos vários grupos desviantes, porque a identificação com um grupo de pessoas com as mesmas dificuldades diminui a frustração, os conflitos, a ansiedade e a motivação para agir dentro do padrão esperado. Quando as pessoas que gaguejam se unem a seus pares, ressentem-se de sua identificação grupal, ainda que se sintam mais à vontade. Entretanto, quando ser uma pessoa que gagueja traz intenso desconforto pessoal, a percepção da gagueira no outro provavelmente despertará uma grande ansiedade e poderá fazer com que a pessoa evite o contato com outras pessoas que também gaguejam.

Além disso, muitas pessoas que gaguejam, mas cuja gagueira não é conhecida pelos demais, tendem a diminuir os contatos sociais e evitam fazer-se notar nas situações em que a gagueira poderia tornar-se óbvia. Isso porque, em geral, as pessoas que gaguejam se preocupam com as punições sociais (implícitas ou explícitas) resultantes do estigma da gagueira e, conseqüentemente, relutam em expor sua gagueira publicamente. Além do mais, é do senso-comum acreditar que, se a pessoa gagueja, é por que não consegue controlar sua fala, ignorando-se que a gagueira é involuntária, intermitente e individual.

Sabe-se que existem atitudes diferentes diante de diferentes distúrbios. Os distúrbios com base orgânica mais claramente identificável (por exemplo, distúrbios visuais, auditivos ou físicos) geram estigmas menos extremados, enquanto que os distúrbios tidos como psicológicos (por exemplo, depressão, deficiência mental, psicose) geram estigmas mais extremados. É possível afirmar que também ocorre um estigma extremado em relação à gagueira, porque a sociedade tende a compreender a gagueira como resultante exclusivamente de problemas psicológicos, o que não é verdade. Hoje em dia, inúmeras pesquisas apontam o aspecto orgânico como fator predisponente para a origem e o desenvolvimento da gagueira. Tais estudos explicam o desenvolvimento da gagueira como resultado do mal funcionamento de algumas áreas do cérebro responsáveis pela fluência da fala.

Além disso, os distúrbios visuais e físicos, como são altamente perceptíveis, geram maior solidariedade e compreensão das pessoas em geral do que os distúrbios auditivos e mentais. Poderíamos pensar que a pouca percepção do outro sobre as dificuldades que ocorrem na gagueira ocasionam menor solidariedade e compreensão das pessoas, fazendo com que ainda exista o estigma de que se a pessoa que gagueja se esforçar o suficiente, conseguirá falar sem gaguejar. Isso não é verdade. A gagueira é involuntária e a pessoa que gagueja, por mais que se esforce, não consegue ter controle absoluto sobre a sua fala. Também há o fato de que a gagueira é intermitente e isso faz as pessoas acreditarem que, se em um momento aquela pessoa pode falar sem gaguejar, ela poderá falar fluentemente de novo, desde que se concentre ou se esforce para isso.

O auto-conceito de uma pessoa se forma, principalmente, a partir das condensações das avaliações dos outros. Desta forma, se a sociedade avalia negativamente um distúrbio, as pessoas que apresentam aquele distúrbio também tendem a se auto-avaliar negativamente. É o que freqüentemente ocorre na gagueira: a avaliação das pessoas que gaguejam em relação a si mesmas costuma ser tão negativa quanto a avaliação da sociedade em geral. Ou seja, a falta de informação atinge também as pessoas com gagueira, que geralmente pouco conhecem sobre seu distúrbio de fluência.

Muitas vezes, há pessoas que buscam manter um certo grau de distanciamento em relação às pessoas que gaguejam, por sentirem-se pouco à vontade na presença de uma pessoa com gagueira. Pessoas que não gaguejam e que não conhecem esse distúrbio freqüentemente se sentem inseguras quando interagem com pessoas que gaguejam, por não sabem como agir diante de interrupções abruptas e atípicas na fala. São comuns dúvidas como: devo ajudá-lo a falar ou não? Quando devo ajudar? De que maneira devo ajudar?

A gagueira pode limitar a gama de experiências vividas. A experiência limitada associada a um alto grau de ansiedade pode fazer com que algumas pessoas que gaguejam se dediquem a um menor número de atividades e a atividades mais simples. A vivência da gagueira pode induzir seu portador a auto-conceitos e níveis de aspiração pouco realistas e não raramente ocasionar maior ansiedade. Um fato constatado é que uma pessoa que gagueja está mais propensa a receber avaliações conflitantes de sua comunidade (por exemplo: a avaliação dos pais é diferente da avaliação dos professores, que é diferente da avaliação dos colegas, etc.). Quando uma pessoa está exposta a muitas avaliações contraditórias a seu respeito, pode também desenvolver um alto grau de ansiedade, porque não consegue estabelecer seu auto-conceito de forma clara e coerente, preocupando-se cada vez mais com seu distúrbio.

Os leigos em geral tendem a pressupor que as pessoas com gagueira devem se sentir e agir como inferiores e esperam que elas se comportem de acordo com essa suposição. Grande parte da população resiste a modificações dessas expectativas, esperando-se que as pessoas que gaguejam ocupem seus lugares e desempenhem os papéis ditados por seus estereótipos culturais.

Em certas situações, uma pessoa com distúrbio pode ser percebida de maneira mais favorável do que outra pessoa sem distúrbio. Por exemplo: um professor sentado em uma cadeira de rodas é percebido pelos seus alunos como mais consciente da situação de cada um, mais compreensivo, tem uma visão mais positiva do aluno do que um outro professor sentado em uma cadeira comum. Neste caso, a pessoa com distúrbio é favorecida, porque conseguiu se realizar a despeito de sua diferença.


Referência bibliográfica:
TELFORD, Charles W. & SAWREY, James M. (1988). Desvio e Estigma. In: O Indivíduo Excepcional. 5ª ed. Rio de Janeiro: LTC Editora. p. 94-121.

   
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