Genética > ÚLTIMAS INFORMAÇÕES SOBRE GAGUEIRA PERSISTENTE E GENÉTICA - parte I

Pesquisadores da Washington University School of Medicine em St. Louis mostraram que pelo menos alguns tipos de gagueira persistente são causados por mutações em um geneque regula não a fala em si, mas uma via metabólica envolvida na reciclagem de partes velhasdas células.

O estudo fornece a primeira evidência de que mutações que afetam esses centros de reciclagem chamados lisossomos desempenham um papel na causa de alguns tipos degagueira. Isso foi extremamente inesperado, diz o autor, Dr Stuart A. Kornfeld. Por que um comprometimento em uma via lisossomal levaria à gagueira? Nós não temos a resposta para isso. Em parte porque não sabemos muito sobre os mecanismos de fala, sobre quais os neurônios do cérebro estão envolvidos. Portanto, não podemos explicar completamente a gagueira, mas agora temos pistas.

Indícios genéticos para a gagueira foram primeiramente identificados e divulgados em um artigo publicado no New England Journal of Medicine, em fevereiro de 2010. Neste artigo, Dr Dennis Drayna, um investigador do Instituto Nacional de Surdez e Outros Distúrbios deComunicação e co-autor do estudo e seus colegas, relataram resultados de estudos genéticos sobre os membros de uma grande família paquistanesa, muitos dos quais gaguejavam. Entre a maioria das pessoas que gaguejavam nestas famílias, eles descobriram mutações em três genes envolvidos em mandar as proteínas para o lisossoma. Estas mesmas mutações também foram encontradas no Paquistão, na América do Norte e na Europa, em muitos indivíduos que gaguejam não aparentados. Todavia, não estavam presentes nos que tinham fala fluente.

Eles encontraram mutações em três genes que codificam um caminho para mandar enzimas lisossomais recém-feitas para os lisossomos, que era um caminho que tínhamos descoberto anos atrás, diz Kornfeld. Até agora, um dos três genes, o NAGPA, não tinha sido implicado em qualquer distúrbio humano. Este foi o lugar onde o Dr Kornfeld e o Dr Wang Lee-Sik, professor de pesquisa em medicina na Universidade de Washington, escolheram para começar a investigação bioquímica das mutações que o grupo de Drayna havia identificado.

O NAGPA codifica uma enzima responsável pelo último passo no direcionamento dessas proteínas para o lisossoma. O trabalho do Dr Drayna identificou três mutações distintas no NAGPA em indivíduos que gaguejam. E de acordo com a análise bioquímica de Lee, todas as três mutações prejudicam a enzima, mas cada uma o faz de uma maneira diferente. Em geral, as mutações no gene fazem com que a proteína resultante se configure num formato inadequado. Estas proteínas mal formadas são identificadas e destruídas.

Neste caso, a análise bioquímica feita por Lee mostra que duas mutações parecem aprisionar as proteínas no centro de fabricação de proteínas da célula, apesar de algumas conseguirem sair antes de serem destruídas. Não é uma coisa de tudo ou nada, diz Kornfeld. O material que consegue sair, tem sua atividade normal. Mas a terceira mutação causa um problema maior na forma e as proteínas são destruídas poucos minutos depois de terem sido produzidas.

Tais achados oferecem um vislumbre de possíveis futuras terapias para a gagueira. Pelo menos para duas das mutações, o problema não é que a proteína não pode ser reciclada, mas sim que ela não pode sair do centro de produção de proteínas e ir para o lisossoma. Se algo pode ser encontrado que ajude a proteína a escapar, o trabalho de Lee sugere que ela iria funcionar normalmente. Kornfeld adverte, no entanto, que este tipo de terapia para a gagueira ainda está muito longe de ser obtida.

Há bilhões de neurônios no cérebro, e ainda temos pouco conhecimento sobre quais deles estão envolvidos especificamente na fala, diz ele. Nossa principal descoberta é que essas três mutações em NAGPA nas pessoas com gagueira persistente têm efeitos nocivos. Esta é uma evidência bioquímica de que estas mutações são significativas, e não são apenas marcadores de alguma outra alteração genética que poderia ser a causa real.

Tendo descrito as três mutações prejudiciais no NAGPA, o grupo de Kornfeld está agora realizando análises bioquímicas sobre os outros dois genes mutantes que o grupo de Drayna identificou - o GNPTAB e o GNPTG. Drayna e seus colegas estimam que esses três genes mutantes são responsáveis por apenas uns 10% das pessoas que gaguejam que tem história familial positiva. Assim, eles continuam na busca de outros genes que sejam responsáveis pela gagueira.

Este trabalho está disponível no Journal of Biological Chemistry.

Referências:

Lee WS, Kang C, Drayna D, Kornfeld S. Analysis of mannose 6-phosphate uncovering enzymemutations associated with persistent stuttering. Journal of Biological Chemistry. Nov. 18, 2011.Kang C,Riazuddin S, Mundorff J, Krasnewich D, Friedman P, Mullikin JC, Drayna D. Mutations in the lysosomal enzyme-targeting pathway and persistent stuttering. The New England Journal of Medicine. Feb. 2010. Este trabalhofoi realizado com o apoio do National Institutes of Health (NIH) e do National Institute on Deafness and OtherCommunication Disorders,que é parte do NIH, e Malcolm Fraser Foundation.


1 FONTE: Stuttering Foundation of America - Newsletter - Winter 2012 - http://www.stutteringhelp.org/default.aspx?tabindex=923&tabid=936


Tradução: Dra Fga Anelise Junqueira Bohnen, CRFa 5587/RS - Presidente do Instituto Brasileiro de Fluência - IBF

Colaboração: Raphael Castilhos, Mestre em Medicina, neurologista.

   
Voltar

"Instituto Brasileiro de Fluência - IBF" 
Rua Urussuí, 71, 11º andar, cj. 112, Itaim Bibi, São Paulo, SP, 04542-050.
ÚLTIMAS INFORMAÇÕES SOBRE GAGUEIRA PERSISTENTE E GENÉTICA - parte I - Genética - Instituto Brasileiro de Fluência - IBF. Gagueira levada a sério