Epidemiologia > Não estamos sós

Ana Flávia Lopes Magela Gerhardt
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ
Instituto Brasileiro de Fluência - IBF



Inauguro esta coluna bem no estilo AA: meu nome é Ana Flávia, e eu sou uma pessoa que gagueja.

Observe-se que não escrevi “gaga”, mas sim “pessoa que gagueja”, muito embora na prática isso dê no mesmo, pois, para todos os efeitos, de uma forma ou de outra eu continuo gaguejando. Mas, num sentido do que é a gagueira na vida de alguém, do tamanho que ela pode ter, há muita diferença. Gago é aquele que não faz outra coisa na vida além de gaguejar, e padecer do sofrimento físico e psicológico, da auto-imagem ruim, da baixa auto-estima e outras pequenas desgraças que acometem todo ser humano que neste mundo escapa um pouquinho mais aos padrões idealizados pelas nossas culturas. A pessoa que gagueja, por sua vez, tem uma vida plena, atividades, projetos, realizações, prazeres; e, por acaso, gagueja.

Como eu disse no título, nós que gaguejamos não estamos sós: segundo as estatísticas sobre o assunto, um por cento das pessoas gagueja, o que, no frigir dos ovos, num país como o Brasil, por exemplo, diz respeito a pelo menos 1.700.000 pessoas. É gente à beça!

Quanto ao sexo, já não tenho tantas companhias. Entre quatro pessoas que gaguejam, apenas uma é mulher, já que, na loteria genética da gagueira, entre homens e mulheres, é preciso que haja comparativamente mais gente gaga numa família para que uma mulher nasça com genes de gagueira.

Mas pelo menos estou bem acompanhada: muitos gagos se notabilizaram pelo seu brilho, inteligência e beleza: entre os mortos ilustres, Charles Darwin, Winston Churchill, Marilyn Monroe, Nelson Gonçalves e Machado de Assis, este também negro e epilético, o que lhe confere um superprêmio genético, uma verdadeira mega-sena acumulada, num tempo em que discriminar os negros não era racismo, e o epilético era um endemoninhado.

Algumas pessoas mundialmente famosas já declararam sua gagueira, como Julia Roberts (e o irmão também ator Eric Roberts), Samuel L. Jackson, Carly Simon, Harvey Keitel, Bruce Willis e Tiger Woods. James Earl Jones, o dono do poderoso vozeirão do Darth Vader em toda a série Guerra nas Estrelas, também se assumiu publicamente como gago.

No Brasil, infelizmente ainda é muito difícil ver gente famosa se declarando gaga – tenho notícia apenas do Murilo Benício. Mas certamente por aqui há muitos gagos famosos escondidos no armário. Provavelmente, se todos eles saíssem, a gagueira no Brasil seria uma coisa mais natural e aceitável às pessoas, o que diminuiria muito o preconceito.

Pelos nomes acima, dá pra se ver que a gagueira é um atributo humano bastante democrático: não escolhe sexo, cérebro, classe social, etnia. Dá até em gente de sangue azul: assisti uma vez, num documentário, a uma cena em que o pai da Rainha Elizabeth, o Rei George VI do Reino Unido, pobre coitado, severamente gago, tentava dizer alguma coisa inteligível a uma multidão de súditos ávidos por esperanças e motivação para se manter unida sob os bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Dizem que seu esforço não foi em vão, porque os ingleses, para enfrentar as dificuldades da guerra, inspiraram-se na coragem moral do seu rei.

Há quem se choque ao saber que muita gente talentosa e inteligente gagueja. A meu ver, isso ocorre por dois motivos: primeiro, porque normalmente se supõe que a gagueira seja uma evidência de intelecto fraco, inepto, o que, a tomar por algumas das pessoas citadas acima, não é definitivamente o caso. Segundo, porque em geral a gagueira é identificada pela sua faceta perceptível, a saber, as repetições, os bloqueios, os prolongamentos de sílabas ou às vezes de palavras inteiras, não raro acompanhados de tiques de toda sorte. O que muitos não sabem é que os aspectos perceptíveis da gagueira somam apenas vinte por cento do processo, e que para nós é possível disfarçá-los com treino e exercício, mas isso não impede que os oitenta por cento estejam lá, impassíveis, perigosos, dentro de nós.

Sendo uma pessoa que gagueja, tenho que fazer escolhas sobre o que fazer com os perigos perceptíveis e imperceptíveis que ameaçam todo gago. Ao assinar uma coluna nesta revista, estou fazendo uma dessas escolhas: como colunista, eu poderia tratar de outros assuntos além de gagueira, porque na vida faço algumas outras coisas além de gaguejar. Mas optei pela gagueira porque já se discutem tantos outros assuntos, e tão pouco se discute gagueira, tão pouco se sabe, tão pouco se compreende sobre a pessoa que gagueja, que qualquer lugarzinho dedicado a isso talvez venha bem a calhar.

De forma que esta coluna é sobre gagueira, e sobre etc., isto é, sobre temas relacionados à gagueira, como a linguagem, a fala, o cérebro, as pesquisas dedicadas ao assunto; e, claro, é também sobre as pessoas, seus sentimentos, desejos. Mas é igualmente sobre o preconceito, a intolerância, o deboche, e nisso nós que gaguejamos também não estamos sós, porque o ser humano infelizmente ainda precisa diminuir o outro, o diferente, para se sentir menos amesquinhado.

Mas, sobretudo, nesta fala sobre gagueira, potencialidades, empenhos, fracassos, conquistas, espero que, pelo caminho, os percalços da vida nos tenham ensinado alguma coisa... O que não mata engorda, já dizia o Nietzsche.

 

Artigo publicado originalmente na Revista Médio Paraíba, em 11/05/2008.

   
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