Características > De gago a pessoa que gagueja

Ana Flávia Lopes Magela Gerhardt
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ
Instituto Brasileiro de Fluência - IBF

 

Escrever é uma das ações que me dão mais prazer nesta vida. Escrevendo, sinto-me construindo coisas reais, concretas. Mas a minha formação como pesquisadora em ciência da cognição tem tornado esse prazer muito arriscado, porque com a pesquisa compreendi que o que está escrito jamais será inteiramente capturado pelo leitor. Cada um que lê, guiado pela mescla que faz entre o que seu olho capta e as suas próprias experiências de vida, registrará em sua mente palavras que não foram escritas, e não fará reparo em muitas das que foram. Suporá qualidades e defeitos que o escritor não tem, mas, aqui pra nós, tanto melhor que seja assim, porque toda reação, positiva ou negativa, enriquece o que se escreveu. O fato é que jamais haverá duas pessoas que vejam o mundo absolutamente da mesma forma, porque o que vemos do mundo é o que somos.

Especialmente arriscado é escrever sobre gagueira –  este é o aprendizado que tenho tido ao longo dos últimos quatro anos escrevendo sobre o tema em lista de discussão na Internet (mais especificamente, a lista do yahoo discutindo-gagueira, que eu criei e modero). Por ora não me vem à mente, e creio que não virá tão cedo, um assunto que diga respeito à gagueira e que não traga em si alguma polêmica entre os que a portam, e também entre os que a tratam.  Qualquer comentário acerca da sua etiologia, dos aspectos neurais, respiratórios e motores a ela relacionados, dos tratamentos, das condições de vida dos que gaguejam, dos valores sociais agregados, das disposições legais etc. invariavelmente se acompanham de opiniões divergentes, muitas vezes acaloradamente manifestadas.

Porque quando se trata de gagueira as coisas nunca são simples. Penso que isso ocorre, entre outros motivos, porque, como se vê em todas as áreas de conhecimento, ainda há muito o que descobrir em relação à gagueira como um processo realizado em diferentes domínios de experiência humana, e ao pesquisador não é possível dar conta de todos ao mesmo tempo. Haja vista o que se passou a conhecer da década de noventa em diante, quando se tornaram acessíveis os meios não invasivos de observação do cérebro, que permitem ver o que acontece na cabeça da pessoa no momento em que ela gagueja; com a neuroimagem, um universo de possibilidades de compreensão dos fenômenos que envolvem a gagueira se descortinou diante de nós, para se articular ao que já se sabia. E muita coisa mais ainda virá, porque a fonte do conhecimento não se esgota nunca.

Por princípio, creio que a evolução do pensamento coletivo, histórico, acompanha-se necessariamente de uma evolução de pensamento na vida de cada um, não numa relação de causa-conseqüência, mas como um fluxo natural das coisas. Por exemplo, há trinta anos não era possível a uma pessoa portadora de gagueira compreender seus processos neurais; hoje este componente já é um assunto comum nos diálogos entre os que gaguejam, e certamente fará parte dos textos desta coluna.

Com o acúmulo de conhecimento e o refinamento da visão sobre as coisas, o auto-conhecimento vem como conseqüência natural. O conhecimento nos permite sabermos mais sobre nós mesmos, sobre as causas e as origens do que nos acontece. Liberta-nos para agir sobre o que somos, para nos tornarmos, não pessoas diferentes, mas melhores.

Este caminho, o do conhecimento e o do autoconhecimento, é, no meu entender das coisas, o caminho de quem passa de gago a pessoa que gagueja. Não se trata apenas de uma mudança de nome; não se trata de modismo, ou eufemismo politicamente correto. Trata-se, sim, da construção de um outro universo, outra visão de mundo, de uma vida cujo agenciamento está em nossas mãos, e de não mais sofrermos à mercê das forças da natureza e do destino.

Mas, interessantemente, essa atitude protagonista sobre a própria gagueira e sobre a vida só  acontece quando nos damos conta de que não gaguejamos porque queremos, e que ninguém tem culpa da nossa gagueira, nem nós mesmos, nem quem nos criou. Curioso isso, não? Assumimos nossas responsabilidades quando descobrimos que não somos culpados.

Em muitas situações, quando gaguejamos, as pessoas nos aconselham a falar mais devagar, ou mais rápido, ou não falar, como se coubesse a nós gaguejar ou não, como se fosse nosso desejo gaguejar. Analogamente, já foi importante no passado a concepção de que a gagueira resultava de maus-tratos dos pais: imaginem os leitores a vida dos pobres e amorosos pais de crianças que gaguejavam, carregando uma cruz que nem sabiam onde e por quê lhes impuseram, temerosos dos olhares e comentários alheios a cada ocasião em que seus filhos abriam a boca.

Felizmente, já não vivemos mais nesses tempos, e está ao alcance de boa parte das pessoas um conhecimento razoável sobre a gagueira. Eu, que já sabia das facilidades que a Internet oferece aos que buscam informação sobre o assunto, fiquei imensamente feliz em receber dos leitores mensagens que descreviam descobertas para muito além das concepções correntes, o que é um excelente cenário a contemplar; e o futuro certamente vai fazer avançar mais ainda esse horizonte, para que todos adquiram mais conhecimento e enxerguem a vida com mais positividade.
Por estes motivos - pela modernização dos instrumentos e métodos de pesquisa, pela facilitação de acesso ao conhecimento -, é que, graças ao crescimento pessoal que toda mudança coletiva pode acarretar, dizer-se gago está se tornando insuficiente para muitas pessoas. À medida que se conhece mais sobre a gagueira, e também sobre as formas de tratamento possíveis, é possível às pessoas reconfigurar a sua condição, para conferir-lhe um tamanho que seja real, e não superdimensionado pela aceitação de uma idéia preconceituosa sobre o portador de gagueira como uma pessoa menos dotada, menos inteligente, o que só causa sofrimento, isolamento e revolta.

À pessoa que gagueja também é facultado desatrelar as coisas em si das condições de validação que elas necessariamente trazem. Esta separação é fundamental para que se possa reconhecer o que se pode mudar, e o que não se pode mudar. Até agora, pelo que eu saiba, não é possível mudar o cérebro de uma pessoa que gagueja, fazendo desarticular o funcionamento cerebral relacionado à fala gaguejada. Mas é possível mudar a avaliação que se faz da gagueira e de quem gagueja, não associando uma fala gaguejada a um conteúdo discursivo sem qualidade. Porque é possível gaguejar e falar coisas interessantes, e travar com os interlocutores conversas prazerosas e produtivas, porque é possível gaguejar e ainda assim ser fluente.

Em suma: para mim, pelo que está dito acima, mas sobretudo por hoje reconhecer a minha fala como uma fala gaguejada, de fato, mas uma fala à qual eu atribuo relevância e propriedade, e sem delegar aos outros a tarefa de dizer quem eu sou, é que eu sou uma pessoa que gagueja.

 

Artigo publicado originalmente na Revista Médio Paraíba, em 20/05/2008.

   
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