Neurociências > Silêncio não silencia a causa fundamental da gagueira

Num estudo financiado pelo The National Institute on Deafness and Other Communication Disorders dos EUA e publicado em 2004, pesquisadores descobriram que o cérebro de pessoas que gaguejam processa as palavras de um jeito diferente, mesmo quando elas não estão falando. Os cientistas esperam que esta descoberta ajude a melhorar o entendimento deste complexo distúrbio e a reduzir o estigma que cerca de 65 milhões de pessoas em todo o mundo sentem por ter gagueira.

 

 

Relação com a linguagem

Pela indefinição a respeito de sua origem, a gagueira acabou adquirindo o estigma de ser um problema psicológico. Agora, pesquisadores estão descobrindo que o cérebro de pessoas que gaguejam processa a linguagem de uma forma diferente até quando elas não estão falando.

Sabemos que a gagueira é um distúrbio complexo e existe evidência de que a linguagem desempenha um papel importante nela, explica Christine Weber-Fox, uma neurocientista cognitiva da Universidade Purdue. Por exemplo, as crianças não começam a gaguejar quando dizem suas primeiras palavras, mas quando começam a combinar as palavras em frases, quando a linguagem se torna mais complexa e elas têm que formular mais. Então, estamos muito interessados em saber a função do processamento da linguagem em pessoas que gaguejam, mesmo quando essas pessoas não são solicitadas a falar.

Weber-Fox e sua equipe compararam a atividade cerebral de 22 adultos, 11 disfluentes e 11 fluentes, medindo a atividade das células cerebrais em milissegundos através de um equipamento que lembra uma toca de natação repleta de fios e eletrodos, posicionados em pontos estratégicos da cabeça. Aos voluntários, foram mostradas duas palavras em uma tela de computador. A tarefa era identificar, em total silêncio, através do toque de um botão, que palavras rimavam uma com a outra. Algumas palavras em inglês, como own e gown, são escritas de forma similar mas não rimam; outras, como own e cone, rimam apesar de não serem escritas de forma similar; já outras, como own e cake, não rimam e nem são escritas de forma semelhante.

Este procedimento obriga você a dizer as palavras para si mesmo, comenta Weber-Fox. Em outras palavras, se você vê a palavra ‘own’ piscar na tela e depois a palavra ‘gown’, é preciso avaliar o mais rápido possível se elas rimam ou não. Ao fazer isso, penetramos em alguns dos mesmos mecanismos que as pessoas usam quando estão elaborando fala.

Weber-Fox e sua equipe descobriram que quando duas palavras parecem similares, mas não rimam, gagos levam mais tempo para processar as palavras e emitir um parecer. Em geral, eles foram um pouco mais lentos, muito pouco mesmo, cerca de um centésimo de segundo, mas essa pequena diferença significa muita coisa quando falamos de atividade cerebral, ela diz. Em pessoas que gaguejam, a complexidade da tarefa realmente influencia e interfere no processamento num grau maior do que ocorre com pessoas que não gaguejam. A análise das ondas cerebrais também mostrou que pessoas que gaguejam realizam esta tarefa de uma forma neurologicamente diferente. Nelas, descobrimos que a atividade no hemisfério direito era maior que no hemisfério esquerdo, e isto não foi encontrado nos indivíduos de fala normal. Nestes, as respostas a esta tarefa foram mais equilibradas entre os dois hemisférios.

Removendo estigmas

Weber-Fox ressalta que, embora a linguagem seja um fator importante na gagueira, ela não é o único fator envolvido no distúrbio e a causa fundamental do problema pode diferir de pessoa para pessoa. Ela espera que estudos como o seu ajudem a remover os estigmas que ainda impedem que pessoas que gaguejam sejam tratadas com respeito. A gagueira é um comportamento involuntário que resulta de diferenças fisiológicas. Portanto, acho que é importante ter isso em mente quando falamos de gagueira, ela diz. E acrescenta: ainda que seja uma resposta fisiológica ou alguma coisa que esteja acontecendo no cérebro, não significa que seja imutável. Eu acredito que a pesquisa neurocientífica está fornecendo atualmente muita esperança e otimismo para a descoberta de formas mais eficazes de tratar a gagueira.


Esta pesquisa apareceu na edição de dezembro de 2004 do periódico científico Journal of Speech, Language, and Hearing Research, e foi financiada pelo The National Institute on Deafness and Other Communication Disorders dos EUA.


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